Pesquisa & Educação
Maurício Pazz pesquisa a música enquanto a faz: no instrumento que inventou, na dissertação, na série documental e nas oficinas.
Mestre em Processos de Criação Musical pela ECA-USP (2024) e licenciado em Música pelo IA-UNESP (2018), Maurício Pazz investiga a criação musical a partir de saberes afro-diaspóricos. Essa pesquisa não ficou no papel: virou um instrumento, a Guitarra Afro-Atlântica; deu nome a um show, o Negro Movimento; e guardou memórias numa série documental, Cor do Som.
Os ciclos rítmicos nas músicas das diásporas africanas
Trabalho de conclusão de curso · Licenciatura em Música, Instituto de Artes da UNESP · orientação de Maurício Funcia de Bonis · banca com Salomão Jovino da Silva (Centro Universitário Fundação Santo André) · 2018
O trabalho parte de uma pergunta: por que, na música de tradição erudita europeia, o ritmo foi o elemento que menos se desenvolveu, enquanto melodia e harmonia ocuparam o centro? Com Frantz Fanon, Muniz Sodré, Kazadi wa Mukuna e Stuart Hall, Maurício argumenta que o ritmo, território pouco vigiado pelo colonizador, foi um dos espaços em que africanos e afrodescendentes puderam preservar e reinventar seus modos de pensar a música.
Daí o centro da pesquisa: os ciclos rítmicos, também chamados de timelines, claves ou células rítmicas essenciais, padrões que se repetem e organizam melodias, harmonias e baixos. O texto passa pelo tresillo, pelo côco, pelo partido-alto e pelo ijexá, pela “imparidade rítmica” descrita por Simha Arom, e termina propondo usos criativos desses ciclos, como manter a identidade de um ciclo de 16 pulsos reduzindo-o a 12.
É a primeira formulação de ideias que voltariam na dissertação Negro Movimento e na música de Maurício: as claves como modo de pensar, e a tradição não como arqueologia, mas como invenção.
“Penso e digo: étnicas, todas músicas são.”
Maurício Pazz, na dedicatória do TCC (2018)Para ouvir junto
Gravações indicadas no próprio TCC, em que o ritmo está longe de ser só pano de fundo:
- Seu Lourenço no VinhoPixinguinha · na gravação de Nicolas Krassik, disco Na Lapa (2004) · Ouvir ↗
- Coisa nº 1Moacir Santos · disco Coisas (1965) · Ouvir ↗
- Tarde de ChuvaPaulo Moura · com Raphael Rabello, disco Dois Irmãos · Ouvir ↗
- Babá AlapaláGilberto Gil · disco Refavela (1977) · Ouvir ↗
- PatumbalacundêJoão Donato · disco Lugar Comum (1975) · Ouvir ↗
Ler o TCC (PDF) · em breve
Negro Movimento: uma jornada musical reflexiva pelas encruzilhadas afro-diaspóricas
Dissertação de mestrado · Programa de Pós-Graduação em Música da ECA-USP, área de Processos de Criação Musical · orientação de Rogério Luiz Moraes Costa · banca com Marília Velardi e Marcos dos Santos Santos · defendida em 20 de setembro de 2024
“Não faça força! A força vem do movimento!”
Maurício Pazz, na introdução da dissertaçãoO nome nasceu de um mantra que Maurício repetia para tocar sem tensão. De tanto ser repetida, a frase passou a falar de outros movimentos: do corpo de quem dança, da política, da arte e do gesto de sonhar.
Escrita em tom de conversa, a dissertação traz as letras das músicas e códigos QR para ouvir e ver as obras durante a leitura.
Resumo
Este é um trabalho que articula investigação acadêmica, produção e pesquisa artística. Através de uma abordagem auto-etnográfica, que tem como fio condutor as aprendizagens e desejos que emergem dos processos criativos e das memórias. Nesta pesquisa investigamos também procedimentos composicionais orientados por saberes oriundos de epistemologias musicais afro-diaspóricas. Além das reflexões, também são apresentadas tanto as obras criadas quanto outros tipos de desdobramentos criativos, dentre eles destacamos a construção de um instrumento que recebeu o nome de guitarra afro-atlântica.
O percurso
- Reflexões sobre metodologiaO método de uma pesquisa feita de dentro do próprio processo criativo.
- Banjo, bandolim e guitarraAutoetnografia e dupla consciência: três instrumentos de corda como fio para pensar música e relações étnico-raciais no Brasil.
- Playgrounds MusicaisA ludicidade e a leveza no centro da criação: o transe do brincar, as claves e o que se aprende com o samba, a afrociberdelia.
- Criações e desdobramentosAs composições nascidas da pesquisa e a construção da Guitarra Afro-Atlântica.
A Guitarra Afro-Atlântica
Do violão tenor, instrumento que marca sua trajetória, nasceu a Guitarra Afro-Atlântica. Maurício queria reunir num só instrumento o melhor de três mundos: da guitarra, os graves e o acesso fácil às regiões agudas; do bandolim, a ergonomia da escala curta; do tenor, a afinação em quintas e a captação magnética. E mais uma corda grave, para facilitar os arranjos solo.
Ele reuniu as medidas a partir de projetos de bandolim barítono e encomendou a construção a um luthier da África do Sul. O nome vem dessa travessia: o instrumento cruzou o Atlântico para chegar até ele.
“Mirei na guitarra elétrica e acertei na guitarra afro-atlântica.”
Maurício Pazz, na dissertação Negro Movimento (2024)
Cor do Som – Memórias da Música Negra
Em 2019, Maurício Pazz idealizou, pesquisou, roteirizou e dirigiu esta série de três curtas documentais sobre as trajetórias de músicos negros: Walmir Gil, Fred Prince e Laércio de Freitas.
A série foi lançada em agosto de 2019 na Matilha Cultural, em São Paulo, com uma roda de conversa sobre música e memória, e exibida em novembro do mesmo ano na PUC-SP, a convite do CECAFRO.
Assistir aos episódiosTrês episódios
- Walmir GilEpisódio 1 · 14 min
- Fred PrinceEpisódio 2 · 13 min
- Laércio de FreitasEpisódio 3 · 15 min
Sala de aula, oficinas e encontros
Educador musical desde 2007, Maurício Pazz leva para a sala de aula a mesma pergunta que move sua criação: como fazer música com escuta, leveza e brincadeira. Deu aulas em escolas, em programas públicos de formação e em cursos livres, e leva a pesquisa também para universidades, Sescs e centros culturais.
Onde ensina e ensinou
- 2026Professor de música no Ensino MédioEscola Vera Cruz, São Paulo
- 2024–25Professor de música no Fundamental 2 e no Ensino MédioEscola da Vila, São Paulo
- 2023Professor na Educação Infantil e no Ensino MédioEscola da Vila, São Paulo
- 2021Curso “Espiral da Memória pós-22: processos criativos musicais numa perspectiva afro-diaspórica”SP Escola de Teatro, professor convidado
- 2016–20Artista orientador de música do Programa VocacionalPrefeitura de São Paulo · 2016 e de 2018 a 2020
- 2017Educador musical nos “Diálogos sobre Gestão Escolar”Jovem de Futuro, Instituto Unibanco
- 2014–Projeto Musical Pazz, espaço de educação musical criativaEm andamento
- 2009Aulas de bandolim, cavaco, violão e harmoniaDiese Musical
Palestras e encontros
- 2024Defesa do mestrado Negro MovimentoEscola de Comunicações e Artes da USP
- 2019Mesa “Itamar Assumpção e a experiência da música independente em São Paulo”Instituto de Estudos Brasileiros da USP
- 2019Exibição de Cor do Som e roda de conversa, a convite do CECAFROPUC-SP
- 2019Aula sobre Itamar Assumpção no ciclo Letra é Treta, de Allan da RosaCentro Cultural São Paulo
- 2019Lançamento de Cor do Som, com roda de conversaMatilha Cultural
- 2019Mesa “Carreira do músico: novos caminhos para viver de música”Instituto de Artes da UNESP
Para levar à sua escola ou instituição
Negro Movimento
Processos de criação a partir de saberes afro-diaspóricos: as claves, o samba, a ludicidade e a imaginação como método.
Guitarra Afro-Atlântica e instrumentos em quintas
Do violão tenor ao bandolim e à Guitarra Afro-Atlântica: como pensar, estudar e brincar com instrumentos afinados em quintas.
Para estudar junto
Três vídeos do canal de Maurício com exercícios de improvisação, entre eles um dos Playgrounds Musicais.
Construindo Playgrounds Musicais · Gm
Brincando pra criar (improvisação)
Mellow Mood (Jimmy Smith) · play along